sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O PODER DO "SIM"


Os pais são os escritores de histórias dos seus filhos e, é através dessas histórias que as crianças aprendem a descobrir-se e a construir o seu EU. As crianças são como esponjas e, sem duvida alguma, absorvem tudo aquilo que fazemos e dizemos.

Experimente fazer este exercício:
Durante um dia observe-se a si mesmo a falar com o seu filho.
O que vê? Gosta do que vê? Incide o seu discurso e a sua atenção no que o seu filho faz de mal e esquece-se de olhar e verbalizar o que está bem? Esquece-se a verbalizar a alternativa "boa" para o que a criança está a fazer menos bem (não vás para cima do banco!", em vez de "vai para aquela cadeira, por favor")?

Se é isto que observa, ou seja, se observa um enfoque no negativo é altura de parar e mudar qualquer coisa...

Faça uma pausa e veja de que forma pode resolver o que para si é um problema sem se focar no negativo...Dê a volta de uma forma positiva a algo que parece ser "o fim da macacada" e, desta forma, pode até incluir a criança na elaboração de um plano que funcione...!!!
Experimente perguntar mesmo directamente à criança: "O que achas que podemos fazer para que as coisas funcionem melhor?".
Olhe que, muitas vezes, as sugestões que surgem são melhores do que jamais poderíamos inventar nós mesmos!!!!

Muitos "nãos" acabam por desencorajar a criança a explorar e a investigar o seu ambiente, que é uma das suas principais formas de aprendizagem. Quando as crianças são castradas e frustradas na sua necessidade de explorar o meio à sua volta, ficam irritadas, frustradas, zangadas e começam a ter comportamentos que expressam tudo isto...

No exercício que lhe sugeri em cima, quantos "Não, pára, não faças!" ouviu-se a si mesmo dizer nesse dia?

Então, imagine este cenário:

Está a conduzir o seu carro em hora de ponta. Já existem os sinais de trânsito habituais e o caos do transito que você já está à espera, já conhece mas, para além disso, hoje, em cada curva, há um novo sinal de stop, ou seja, volta e meia, e quase de 3 em 3 minutos, tem de parar e assim atrasar o que está desejoso de ter: CHEGAR A CASA!
Como acha que se ia sentir? Aposto que iria ficar muito mal-humorado!

Pois...Da mesma forma, uma criança que está em plena exploração do que está à sua volta, se está constantemente a ser mandada parar, fica irritada e de mau humor!

É claro que as crianças precisam de limites e precisam do NÃO para crescerem de forma equilibrada e saudável mas, o NÃO pode ser dito de varias formas, ou seja, podemos adaptar o NÃO, de forma a não estarmos constantemente em conflito e em confronto com os nossos filhos...Se não o fizermos deixa de existir tempo de qualidade com a criança há custa da importância da criança ser contrariada!

A criança não tem de ser contrariada "à bruta"; a criança tem é de perceber que é importante saber colocar-se no lugar do outro e, perceber o que é esperado dela e, para isso,não é preciso estarmos de 5 em 5 minutos a dizer "não faças, pára ou está quieto".

Em vez disso, pense de que forma pode envolver o seu filho de uma forma positiva, de modo a que ele se torne mais cooperativo.

Se seu filho está a fazer uma birra, por exemplo, em vez de "PÁRA!" experimente conte-lo, abraça-lo sem dizer nada, enfim, não entrar em descontrolo também. Quando o seu filho estiver mais calmo ai sim, fale com ele e ajude-o a processar os seus sentimentos e a pensar em algumas maneiras que podem trazer melhores resultados.


Pergunte a si mesmo como é que pode ajudar o seu filho a parar a birrar sem a reforçar...Pergunte-se se o quer é para a birra ou impedir que ela volte a acontecer !

Tendo a consciência de que o NÃO é a palavra magica para que a criança faça mais oposição, pense para si como é que poderá transformar esse NÃO num SIM!

Nunca se esqueça de um dado muito importante...Se quer que o seu filho mude, vai ter que mudar também enquanto pai/mãe.

Ajudar a criança a PENSAR, pode e deve começar a ser trabalhado desde pequenino...Não é pensar PELA criança mas sim pensar COM a criança para que ela, através da frustração (controlada "por si") vá encontrando as suas alternativas para uma relação mutuamente prazeirosa e mais positiva.

Fátima Poucochinho
Psicóloga Infanto Juvenil
Clínica ASAS, Portimão

Texto inspirado num artigo de Mary Hartzell